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* Vicente Dobroruka - Papai

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Meu pai, Luiz Camillo Dobroruka, não gostava de bossa-nova, nem chegou a entender a metalinguagem do jazz e não era de ler muito. Gostava de vinho rosé e ficava ele mesmo rosado quando bebia, o que era raro. Não fumava mas tinha lá seus vícios, que acabaram levando-o de mim mais cedo. Não falarei deles em detalhe porque esta página é só das coisas boas do "velho", como eu o chamava, atendendo a pedidos do próprio. Tampouco terá versão em inglês, embora ele mesmo fosse professor da língua; a ele devo também meu interesse precoce na mesma. Acho que quando ainda era muito pequeno foi a Inglaterra o primeiro país que identifiquei como "estrangeiro", e meu pai foi para lá em 1975 a trabalho. O velho (sem aspas, nada de formalismos da ABNT aqui) trabalhava no consulado britânico no Rio de Janeiro (naquele prédio maravilhoso onde ficava a cobertura do finado Jorginho Guinle). Não gostava dos ingleses, que considerava complicados demais, e acho que também não gostou da Inglaterra (não o censuro: se hoje em dia é ainda como é - é de Oxford que escrevo esta página - há 30 anos atrás devia ser mesmo inóspita).

O velho não tinha muito em comum comigo. Não sei o que nos aproximou tanto, e nem me interessa agora. Quero só a lembrança e a esperança de que, se existe um Céu, irei encontrá-lo lá um dia. Não era batizado: não sei se isso será empecilho, pelo menos no que concerne ao velho. Contava sempre que o meu avô materno, com quem ele se dava muito bem, prometera-lhe fazer 2 coisas antes de morrer: batizá-lo e cozinhar um coelho. Não cumpriu as promessas, mas com certeza não foi por descaso.

O que vem abaixo são os clichês, todos os clichês do mundo. Não tenho problema algum com isso e nem teria como evitá-los aqui.

Meu pai me apresentou ao mundo, e desde cedo. Aprendi a amar os livros e os estudos de humanidades com minha mãe mas o que meu pai me ensinou talvez tenha sido mais determinante em longo prazo, e sem o que ele me mostrou da vida eu não teria podido operacionalizar nada, da direção do carro até a conta em banco. Diga-se de passagem que meu pai não era bom motorista (aprendeu tarde, quase aos 40 e fomos ter nosso primeiro carro, um Fuscão marrom, somente em 1980) e muito menos responsável com dinheiro. Não era objetivo com os próprios assuntos, mas ensinou-me a ser objetivo com os meus.

Ou se não ensinou, encaminhou-me a quem ensinasse. Fiquei de recuperação em matemática entre 1981-1982. Minha mãe vibrou com o ocorrido, pois confirmava que eu era mesmo um traste e um derrotado. Meu pai teve a cabeça fria para organizar um esquema com um professor particular (Manoel Montenegro), que disciplinou-me para o estudo naquela circunstância terrível e vencemos. Acho que foi de todas as minhas vitórias a maior e a mais difícil. Vestibular, mestrado, doutorado, morar sozinho, tudo isso é sopa perto do que ocorreu ali. Devo a vitória e seus frutos ao velho e a quem ele pôs no meu caminho.

Ele mesmo não conheceu o próprio pai e foi criado, do jeito que deu, por tios e avós. Recentemente soube o que ocorreu com o pai dele, que o abandonou ainda bebê e voltou para a Tchecoslováquia. Achei um tio-avô meu na Internet e ele me explicou que meu avô morreu de sífilis na década de 40.

Quando era criança foi meu pai que me atiçou o interesse pela Segunda Guerra Mundial, interesse que dura até hoje. Engraçado que meu avô tenha morrido de doença naquela época: quando eu, pequeno, me dei conta do que tinha sido a guerra achava que entre 1939-1945 ninguém tinha morrido de causas naturais. Todo sábado de noite, entre 1977-1978 eu e meu pai líamos juntos a história da Segunda Guerra Mundial do Raymond Cartier, comendo biscoitos de leite da Nestlé. Ficava intrigado com os créditos das fotos: quase tudo vinha do Imperial War Museum, que desejei conhecer. Não é à toa que é o único museu que freqüentei assiduamente aqui.

E a música? Já disse que meu pai não era o ouvinte mais sofisticado que se pode ser. Gostava dos standards de sempre - interpretados por Ray Conniff, Tony Bennett, Frank Sinatra ou orquestras de cordas das quais hoje em dia ninguém nem ouve falar - 101 cordas, André Costellanetz, Paul Mauriat, Românticos de Cuba. Comprava os discos em lojas de departamentos como a Sears e a Barbosa Freitas (o primeiro shopping do Rio, o da Gávea, só abriu em 1977), depois gravava fitas cassette para escutar num rádio gravador mono, National (que iria chamar-se Panasonic). Não gosto de nenhum desses intérpretes (embora esteja aprendendo a apreciar Bennett e Sinatra aos poucos) mas foi através deles que conheci as melodias que ouço até hoje - nas interpretações de Chet Baker, Stan Getz, Charlie Parker, Dexter Gordon.

Falando de Gordon e Parker, fui ver "Round midnight" e "Bird" com o velho. Já estava na faculdade na época (de Direito no primeiro filme em 1987, de História no segundo em 1989). Meu pai gostou, não sei se pelas mesmas razões que eu.

Os sábados pela manhã eram sempre no Centro do Rio. Meu pai me ensinou a magia das ruas daquela parte da cidade, sentimento que permanece até hoje. Cada calçada foi pisada pelo velho comigo, sábados indo à Hobbylândia comprar peças de trem elétrico (que nunca montei, embora colecionasse avidamente: ainda faço uma página sobre isso), depois passando nas Edições de Ouro (até o final de 1980 no mesmo prédio da Hobbylândia, o Avenida Central, depois no Largo da Carioca) para comprar os livrinhos da extinta Coleção Elefante - biografias de Júlio César, Alexandre, romances adaptados como Quo vadis? ou Os últimos dias de Pompéia. Por fim, uma passada na quitanda da Colombo ou numa delicatessen que ficava na Gonçalves Dias para comprar goiabada, salsichões bock e chá Twinings. Mantivemos isso até quase ele morrer, embora trens e livros tivessem mudado um pouco - íamos então ao barbeiro (na Santa Luzia, o Vogue), depois à Leonardo da Vinci, Martins Fontes ou Padrão. Meu pai nunca foi de ler muito mas sempre me deu dinheiro para livros, nunca titubeou nisso. Ele gostava de referir-se a si mesmo como meu patrocinador: punha os recursos à minha disposição e, como tal, cobrava resultados, sem se importar com o jeito que eu daria para obtê-los (se estudaria diariamente, ou na véspera das provas etc.).

E ah, a comida... O velho me ensinou a me comportar na mesa comendo fora (minha mãe odeia a comida dos restaurantes, qualquer restaurante). Entre 1977 e 1978 íamos aos hotéis do Rio (Sheraton, Copacabana Palace, Othon, Savoy, Nacional e Intercontinental) para comer sanduíches quentes. Não tínhamos carro mas na época ainda se podia sair de noite com os "frescões", os ônibus com ar condicionado. Depois de 1982 vieram os restaurantes: aprendi cedo que não se corta a salada nem se passa a faca no pão do couvert, e aquelas coisas elementares que andam meio fora de moda - vinho branco com peixes, tinto com carne, nunca beber de estômago vazio. Aliás ele divertia-se com minhas ressacas - dizia que eu me arrastava como um verme até a privada mas que deveria vomitar de pé, em posição de sentido, como um oficial prussiano. O velho também não gostava de bares, muito menos de botecos (que seriam a minha paixão, e são até hoje), mas foi com ele que conheci o bar que mais me marcou, e que até hoje é meu pouso no Rio: o Manolo. Entre os lugares que freqüentei com ele estão o 14 Bis (Santos Dumont), Colombo de Copacabana (hoje fechada), Bar Luiz (sou a terceira geração da família a freqüentar), Lasagna Verde (fechado, italiano na Dias Ferreira), St. Moritz (bar da Casa da Suíça, onde também fumei meu primeiro cigarro na frente do velho, em março de 1986), La Tour (o giratório no Clube da Aeronáutica).

Que tolice que na adolescência tenha me afastado do velho. Não sabia eu que ele tinha tão pouco tempo pela frente (embora ele mesmo fizesse referência a isso sempre - "se eu der com a cara no poste etc."). Mas como ele mesmo dizia, "experiência não se incute, se adquire". Se você está lendo este texto e seu pai é como o meu, pare aqui mesmo e vá ter com ele enquanto pode. Tivemos anos de ouro entre 1975 e 1989; antes de 75 eu morria de medo do meu pai, que, admitamos, não sabia lidar com crianças (era filho único e, como disse, criado sem pai). Mas quando ainda morávamos na Tijuca e eu já estudava no Corcovado (em Botafogo) tínhamos de pegar o táxi juntos, de manhã bem cedo, no ponto do INPS que havia ali perto. Assim ficamos amigos. Depois de 89 o descontrole financeiro do velho, que já havia inaugurado diversas crises, chegou a um beco sem saída e a briga entre ele e minha mãe foi definitiva - não se falaram mais até a morte dele, em 5 de abril de 1991 (a não ser para se insultarem). Tomei as dores de minha mãe na época mas se eu soubesse o que sei hoje, teria sido mais justo com o velho sem dizer amém aos erros dele. Agora é tarde.

Foram 5 infartes ao todo - o primeiro em 1976, e depois em junho de 89, junho de 90, novembro de 90 e abril de 91. As últimas palavras do velho para mim foram "Preciso mesmo ir para São Paulo", em referência ao Dr. Adib Jatene, com quem ele alegava querer tratar-se. Estranho para últimas palavras porque ele já se sabia condenado, com poucos meses de vida. Não me falou nada mas depois soube que minha namorada na época, Lucia de Almeida Abt, que ele adorava e com quem quase me casei, foi procurada por ele para o desabafo. Ele a chamou no seu escritório (na época, na Torre Rio Sul - consulado sul-africano), contou o caso e falou que se soubesse teria levado outra vida - sem os sobressaltos afetivos e financeiros, i.e. sem amantes e sem dívidas. O velho anunciou o desenlace próximo também ao meu (então) amigo Carlos Roberto de Mello Simões Monteiro. Foi meu amigo íntimo até nosso rompimento em 1995 por ofensa grave que, no entanto, eu poderia ter relevado. Minha mãe odiava o "Carlão", como nós o chamávamos, mas meu pai gostava dele e dos seus pais. Se alguém da família estiver lendo isso aqui, agradeço por tudo o que fizeram por nós, pela amizade que ofereceram e que não pude manter depois de certo ponto.

É clichê, mas vai: meu velho foi, a seu modo, herói. Não imagino o que é estar condenado, brigado com a esposa intratável e estremecido com o filho único de quem um dia foi o melhor amigo. Agüentou calado e ainda me deixa essa lembrança maravilhosa, quase 15 anos depois. É mais do que eu posso deixar.


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